Pesquisa aponta que 80% das pessoas já namoraram colegas de trabalho

Um dos casais mais badalados das últimas décadas em Hollywood, Brad Pitt e Angelina Jolie se conheceram num set de filmagem, quando interpretavam um par romântico em “Sr. & Sra. Smith” (2005). A química entre os dois ficou tão clara que não demorou para ir, também, para além das telas. E embora os dois tenham se separado em 2016, a história de amor vivida por eles virou um grande símbolo de como o trabalho pode servir de cupido. Uma situação que é mais comum do que podemos imaginar. 

É isso que mostra uma pesquisa desenvolvida no ano passado com trabalhadores nos Estados Unidos. Segundo o levantamento realizado pela Sociedade para Gestão de Recursos Humanos (SHRM, na sigla em inglês), cerca de 80% dos entrevistados já estiveram ou estão em um relacionamento com companheiros de profissão. O levantamento também apontou que 10% dos trabalhadores admitiram ter envolvimento com subordinados, enquanto 18% estabeleceram relações com superiores.

Outro estudo, este publicado em 2021 pelo site Zety, especializado em conteúdos sobre carreira profissional, apontou que 89% dos profissionais disseram que se sentiram atraídos por colegas de trabalho, 78% chegaram a considerar namorar com alguém com quem trabalhavam e 58% realizaram esse desejo. 

Porém, mesmo que as pesquisas demonstrem que essas relações são, de fato, corriqueiras, há quem torça o nariz para os casais formados nesses ambientes. Isso acontece porque existem diversas crenças, mitos e tabus que cercam esse tipo de relacionamento. “Existe aquele ditado bem antigo, comum para os ‘boomers’ e a geração X, que diz que ‘onde se ganha o pão, não se come a carne’, que fala justamente sobre isso de não haver essa mistura entre o pessoal e o profissional”, aponta Selhe Moreira, psicóloga clínica e terapeuta de casais.

Ela pontua ainda que esse tipo de envolvimento acaba sendo visto a partir de ópticas diferentes, que podem considerar o relacionamento entre os colegas como algo impróprio. “No Brasil não existe legalmente, em nível federal, algo que impeça essas relações, mas vemos que organizacionalmente existem empresas que podem proibir essas práticas”, ressalta. 

Ela cita como exemplo áreas que lidam diretamente com informações confidenciais. Nestes casos, relaciomantos podem propiciar vazamentos. “Existem também preocupações relacionadas à própria facilitação de processos de assédio, principalmente quando há uma hierarquia envolvida. Essa é uma pauta que pode dar problema em termos de leis trabalhistas e que já vimos acontecer em grandes corporações”, acrescenta.

Para a conselheira amorosa Karina Vilaça, a polêmica dos romances entre colegas de trabalho também costuma estar ligada a preocupações sobre profissionalismo, hierarquia e possíveis consequências negativas, que podem incluir conflitos de interesse ou quebra de normas corporativas. “Essas questões também deveriam chamar atenção nos relacionamentos de amizade e parceria mais íntima. Muitas vezes as empresas se esquecem ou colocam esse tipo de relação em outra ‘prateleira’. Eles buscam manter um ambiente profissional e focam as relações amorosas como o único ‘tomate podre’. Com isso, acabam por estigmatizar um namoro ou um casamento como algo que pode gerar vantagens indevidas por conflitos de interesse, mas a verdade é que as relações pessoais, sejam elas amorosas, sexuais, sejam de amizade, inevitavelmente influenciam a dinâmica no trabalho”, pondera.

Complicações por não separar os lados profissional e pessoal

Apesar de os afetos e o próprio interesse poderem ser construídos naturalmente no ambiente de trabalho, namorar algum colega de profissão pode envolver questões complicadas. É isso que aponta Selhe Moreira. “É uma convivência muito massiva, e a gente viu como esse contato constante pode ser prejudicial. Muitas relações terminaram durante a pandemia porque não havia um respiro, um momento para a individualidade”, afirma. 

A dificuldade de distanciar o lado profissional do pessoal também pode ser um fator complicador. “Precisamos entender o nosso lugar em cada ambiente. No meu trabalho, quando estou namorado, a relação que precisa estar no topo não é a de casal, mas, sim, a profissional. É uma coisa a mais que precisa ser ponderada”, orienta. Ela explica ainda que relacionamentos que têm um padrão mais competitivo podem se tornar ainda mais difíceis se desenvolvidos no ambiente de trabalho. “Pode ser uma relação que não vai funcionar, porque vai haver sempre uma disputa”, observa.

O próprio preconceito ou olhares mais desgostosos dos outros companheiros de trabalho podem se transformar em mais um desafio. Em casos como esse, vale voltar para si mesmo e avaliar o que realmente importa. “O que eu faço quando algo na minha vida faz com que o outro ‘torça o nariz’? O que eu estou buscando? Que o outro valide a minha existência ou estou em busca de algo que é meu? É importante que aquela relação faça sentido para você. O mundo sempre vai olhar e emitir opiniões. E, se pautamos nossa existência simplesmente na validação do outro, ficamos em um lugar difícil, porque existem muitos ditames sobre o que deve ser feito ou não. Nunca vamos assinalar todas as caixinhas desse check-list”, avisa.

Pesquisa aponta que 80% das pessoas já namoraram colegas de trabalho

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